ciranda fotográfica 11ª edição

Sexta-feira (24/4)

8h30 – Sessão 1 – antes da  roda de conversa com Marina Feldhues (PE)
| Porto Digital – auditório do Núcleo de Gestão, no Cais do Apolo, 222, 8º andar, Bairro do Recife

  • Vestígios – Ale Ruaro (São Paulo – SP)

É a condensação de mais de vinte anos de investigação sobre linguagem, identidade e liberdade. O livro reúne imagens produzidas entre 2009 e 2025 e assume a fotografia como território expandido, um campo onde a representação deixa de ser registro para tornar-se fricção, ruído e construção poética.

As imagens, densas e por vezes indefinidas, atravessam retratos, street photography e séries autorais, compondo uma paisagem quase ficcional. Não há linearidade confortável: há tensão, matéria, sombra, desejo e dúvida.

Em Vestígios, a fotografia não confirma o mundo, ela o desarticula. Desfoques, texturas e rupturas formais revelam um autor que conhece a tradição para poder tensioná-la. O livro nasce como um gesto de coragem: o primeiro realizado sem a intenção de agradar, mas de afirmar uma identidade visual própria.

Editado e desenhado por Alyssa Ohno, o projeto constrói uma narrativa visual coesa e sensorial, onde design e imagem são indissociáveis. Mais do que um fotolivro, Vestígios é um posicionamento: criar é destruir o estabelecido para abrir espaço ao que ainda não tem nome.

  • História a contrapelo – Cris Miranda (Rio de Janeiro – RJ)

A série é o resultado de uma imersão em diferentes processos fotográficos do século XIX, denominados “artesanais” – cianotipia, papel salgado, marrom van dyke, goma bicromatada e alguns de seus cruzamentos – a partir de colagens digitais que enunciam a ausência e a presença do manto tupinambá na história do país. Com base em imagens da Baía de Guanabara, na quase totalidade produzidas pelo principal fotógrafo brasileiro do século XIX, Marc Ferrez (1843-1923), na silhueta obtida a partir da performance da artista Glicéria Tupinambá e em elementos pertencentes à fauna e flora originais da Baía de Guanabara como o pássaro Guará, as baleias e as árvores de pau brasil, a série procura dar visibilidade ao apagamento de uma história que precisa ser, cada vez mais, retomada, contada, recontada, conhecida e explicada. Interpela e reativa o passado potencializando a história.

  • Jornada Del Muerto – Márcia Charnizon (MG)

Reflete sobre a necessidade de mudanças subjetivas diante das urgências do mundo ao adotar a perspectiva das plantas. O trabalho foi desenvolvido no White Sands National Park, no Novo México, local da explosão atômica de 1945, em uma região que abriga a maior área de testes e lançamentos de mísseis dos Estados Unidos, historicamente marcada também pela atividade minerária.

Esse território, atravessado por sua complexidade e por desafios históricos, torna-se pano de fundo para retratos de plantas nativas, como a Yucca elata e a Sporobolus airoides — espécies que sobrevivem em condições hostis e desafiam, com sua delicadeza aparente, a lógica da destruição do território. A partir do encontro com essas plantas, o trabalho aproxima-se da ideia de leveza formulada por Italo Calvino, não como negação do peso, mas como um deslocamento do olhar a partir da experiência do próprio peso.

Por meio das plantas, Márcia transforma a adversidade em uma reflexão crítica sobre renovação e metamorfose, propondo um engajamento profundo com a realidade.

(Jornada del Muerto é o nome dessa região, assim denominada por colonizadores espanhóis no século XVI. Parte de uma antiga rota comercial, o território passou a ser reconhecido como “‘um caminho que não leva a lugar nenhum”, devido às condições da travessia, nas quais poucos sobreviviam).

  • MEMÓRIA S.A. – Marcelo Prais (São Paulo – SP)

Trabalho em fluxo contínuo desde 2023, tem como objetivo principal dialogar e refletir reflexões em torno de relações universais humanas e afetivas, ascendentes, descendentes e presentes de maneira perene e ou permanente na vida de todos nós.

De forma mais ou menos consciente todos somos afetados por vastos campos de acontecimentos com reflexos que ecoam no tempo.

As imagens aqui construídas trazem um recorte para reflexão singular por cada 

indivíduo que passeia por entre elas. Cada um constrói sua própria versão e suas re-versões.

Recortes nas relações humanas e registros de família desde os anos 1920.

  • contrafluxo Amanda Canhestro (Belo Horizonte – MG)

o câncer fez parte de mim

o contato com a morte,

de algum modo me trouxe à vida

aqui, erro e acerto coexistem

vivo a experiência de poder sentir

sair da apneia

sem sedação

revelar olhos curiamorosos

diante do ordinário, nadar

14 h –  Sessão 2 – Depois das Projeções
| Porto Digital – auditório do Núcleo de Gestão, no Cais do Apolo, 222, 8º andar, Bairro do Recife

  • Orixás, Mestres e Folhas – Hermes Costa Neto (Recife – PE) 

O fotolivro é o resultado de uma pesquisa fotográfica quase integralmente analógica, realizada em negativo colorido e preto e branco, e finalizada em digital. O fotógrafo e documentarista Hermes Costa Neto mergulhou nos terreiros de candomblé de Recife e Olinda, capturando a essência e a beleza dessa rica tradição cultural.

  • Inventário dos lugares impossíveis – Nana Brasil (Salvador – BA)

Em um mundo marcado pela sobrecarga de imagens, emerge a pergunta sobre o que fazer com as fotografias que se acumulam e resistem ao esquecimento. A partir de uma imersão no arquivo pessoal de Nana Brasil, especialmente os arquivos de viagens, nasceu o projeto. A proposta consistiu em transformar esse acervo em novas narrativas visuais, rompendo com as linearidades cronológicas e geográficas que costumam ditar a organização das nossas pastas, HDs e álbuns. Reunidas em grupos polípticos, as fotografias mantêm entre si uma tensão silenciosa, revelando sua incomunicabilidade. A articulação cromática, formal e compositiva suaviza essa ruptura e conduz o olhar a paisagens inexistentes, que se afirmam como artifícios discursivos. Tendo a desconstrução como método, Nana agrupou tempos, espaços e acontecimentos divergentes, criando treze conjuntos imagéticos que funcionam como micro narrativas autônomas. Juntas, essas imagens formam uma constelação de territórios inventados, onde a memória alcança lugares que o corpo jamais percorreu.

  • ainda que desapareça – fabricio victor magno (Caruaru/Recife – PE)

livro-objeto que fala sobre solidão após o falecimento da mãe. é um trabalho que fala sobre como essa solidão se manifesta e também como se elabora. há um grande mistério em torno da solidão, há quem ache bom ou há quem ache ruim. há letras de músicas que falam sobre fugir da solidão ou abraçar a solidão. nesse livro-objeto, fabricio victor tenta elaborar a dele. é um livro-objeto feito que, ao utilizar papel vegetal, carrega a materialidade como uma das características principais do livro.

  • Ulupuwene, A luta das mulheres – Amandine Goisbault (Paudalho – PE) 

O dia a dia da aldeia Ulupuwene, no Alto Xingu, Mato Grosso, é cheio de surpresas. Entre as atividades do cotidiano do povo Waujá estão o cultivo e preparo dos alimentos, a construção e reforma das casas de palha, os banhos e a lavagem de roupas no rio, as rezas, os rituais, o futebol do fim de tarde. Mas em breve será realizada a grande festa tradicional das mulheres, na qual vão se encontrar os Waujá de várias aldeias. Além de cantos e danças, haverá um campeonato de luta entre as representantes das aldeias. Na hora mais quente do dia, as mulheres mais experientes de Ulupuwene, que já foram campeãs, ensinam às mais novas. O treino é de muita força e resistência, mas também é um momento de socialização e diversão entre mulheres e jovens.

  • Raízes Pivotantes – Ana Carvalho (Olinda – PE)

Território afro-indígena situado no alto da Chapada do Araripe, Sertão pernambucano, a Serra dos Paus Dóias abriga conhecimentos ancestrais de cultivo e uso dos matos de cura e alimento, manejado por agricultoras, rezadeiras, benzedeiras mezinheiras e curandeiras – mulheres que têm suas vozes sendo reavivadas e reconhecidas nas suas famílias, comunidade e no seu entorno. Essas mulheres são raízes, sementes, chão, terra, casa e alimento; irradiam uma diversidade de saberes de cura e práticas de cuidado cotidianos, passados de geração em geração para seus filhos, netos e bisnetos, na construção de um território comum de vida e de bem-viver. Aprendem com a Caatinga a resiliência e a resistência. São princípios de vida e transmissão de saberes, mantendo viva a pulsação e a continuidade da vida.

  • Imagem em preto e branco de uma mulher preta de lábios fartos. Ela tem um adorno em sua cabeça, como uma coroa grande de palha, que cobre seus olhos com uma franja de miçangas, e utiliza uma vestimenta feita de conchas e palha. Ela representa Oxum.