pequeno encontro 2022

A fotografia de um sonho

O sono, aquele estado incontrolável e inalcançável, a última fronteira a ser colonizada, avesso dos ideais de exploração, pesadelo das planilhas de produção. O sono nos pertence e é condição tão humana que a sua negação “é uma desapropriação violenta do eu” *. O descanso, na nossa sociedade atual, é desperdício de tempo, quando não produzimos nem consumimos. O ócio como desgraça. No sono somos vulneráveis, daí a necessidade de nos entregarmos a ele em ambiente seguro – e como fica o sono desabrigado dos sem teto?

É no sono profundo quando sonhamos e vivenciamos (imaginamos) situações as mais diversas. Para a psicanálise, podem refletir desejos reprimidos. Para outros, permitem alcançar diferentes dimensões da espiritualidade. “Sonhamos acordados” quando desejamos algo muito forte, importante, que requer esforço ou tem uma aura de magia.

Queremos pinçar algo de muito poderoso envolvendo esse território do sono e do sonho, desse devaneio incompatível com os ideais de produtividade de uma economia baseada na exploração de recursos e de pessoas, do consumo como único impulso possível. O sono como resistência à apropriação e espaço dos sonhos e dos desejos mais utópicos e imaginários.

Vivemos um mundo atravessado pelo individualismo, egocentrismo e narcisismo: solidão cultivada que, não por coincidência, serve a interesses de dominação e de alienação. Uma sociedade marcada pela competição e não pela colaboração, onde infinitas mensagens diárias – na publicidade, nas redes sociais, na música, nos filmes – dividem as pessoas entre vencedores e perdedores, onde o encontro com o outro muitas vezes é desenhado como uma ameaça, algo indesejável.

O Pequeno Encontro da Fotografia completa dez anos desde sua primeira edição, em 2012. Se realiza como um sonho coletivo. É espaço de imaginação, de criação, de devaneio, de diversidade… e de resistência a tantas dificuldades das mais variadas naturezas. Acreditamos na – e lutamos pela – potência dos encontros. Entre pessoas, entre obras, entre ideias. Não o encontro somente entre iguais, mas na riqueza que as diferenças nos proporcionam. Acreditamos no compartilhamento verdadeiro, no estarmos juntos.

Maria Chaves, Eduardo Queiroga e Mateus Sá.

* As referências ao sono foram inspiradas no que o crítico de arte e professor Jonathan Crary afirma no livro 24/7: Capitalismo tardio e os fins do sono.