A produção acadêmica é o foco do Espaço da Pesquisa. Nesta 9ª edição do Pequeno Encontro da Fotografia, os trabalhos são apresentados na quinta-feira (14/9) em dois painéis transmitidos ao vivo pela internet, no formato que chamamos de pequeno em casa. Antes e depois dessas transmissões , o público pode ler os textos aqui pelo site. Além disso, os trabalhos serão publicados em um e-book organizado pela Propágulo Editora.
Convidada pelo Pequeno Encontro da Fotografia para fazer a curadoria do Espaço da Pesquisa nesta edição, Anelise De Carli (RS) é professora e pesquisadora da área da Comunicação, trabalha principalmente com Teoria e Filosofia da Imagem e Fotografia. É também ensaísta e curadora, dedicada a temas ao redor da cultura visual e da decolonalidade. Foi professora substituta da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ, 2022). Cofundadora da Associação de Pesquisas e Práticas em Humanidades (APPH), onde coordena o Grupo de Pesquisa Pensamento por Imagem (GPPimg). Doutora em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com estágio no Institut de Recherches Philosophiques de Lyon. Como artista visual, trabalha com fotografia, videoarte e artes gráficas. Natural de Porto Alegre, vive e trabalha no Rio de Janeiro.
Painel 1 – 15h às 17h, ao vivo pelo YouTube
Referência cruzada: um modo de ser possível para a
imagem técnica
Alan Campos Araújo (Unicap)
No seguinte trabalho, eu proponho debater acerca do lugar da imaginação e da interpretação da imagem no contemporâneo a partir do que chamamos de referência cruzada e tecno-imaginação, conceitos que funcionam como modo de apresentação da imagem a partir de uma indissociabilidade entre real e ficção. O conteúdo a seguir delimita e define boa parte do contexto em torno desses conceitos no intuito de apresentá-los para diálogos com pesquisadores de diversas áreas.
Palavras-chave: imagem técnica; imaginação; referência cruzada; Hermenêutica.
Fotografia como recorte da paisagem: o uso de dispositivos móveis para estudos de desenho de observação
Eduardo Gomes de Lucena (UFRPE e IFPE) e Daniela Nery
Bracchi (UFPE)
Este artigo explora o uso de dispositivos móveis na prática artística contemporânea, analisando o uso de fotografias tiradas por smartphones em estudos de desenho de observação. Inspirado na abordagem tanto dos artistas renascentistas quanto nas tecnologias modernas, o estudo acompanha alunos do Curso Técnico em Artes Visuais no Instituto Federal de Pernambuco – Campus Olinda. Da mesma forma que Leonardo da Vinci usou a câmara escura para estudos de perspectiva, a câmera de celulares auxilia no recorte da paisagem, registrando o espaço e permitindo exploração detalhada. A pesquisa enfatiza a intersecção entre arte e tecnologia ao longo da história, usando Observação Participante como metodologia. A motivação vem da atuação do autor como técnico nos laboratórios de Pintura e Fotografia no IFPE Olinda.
Palavras-chave: Fotografia; dispositivos móveis; desenho de observação; aquarela; arte-educação.
A fotografia e os diálogos adiados e ficcionais no álbum de família
Elisa Elsie Costa Batista da Silva Beserra, Mariana do Vale Gomes e Maria Angela Pavan (UFRN)
Esse artigo é uma investigação acerca de como uma narração feita por uma matriarca sobre um álbum de família – em seus diferentes suportes – pode conduzir o entendimento em relação às fotografias vistas. Duas imagens feitas por José (pai) e narradas por Eunice (filha) foram escolhidas para demonstrar a existência de diálogos adiados e ficcionais sobre os registros familiares, uma vez que quem faz a foto, quem é fotografada, quem vê e quem narra não necessariamente ocupam o mesmo local simultaneamente. A oralidade é permeada pela memória subjetiva e passiva de descaminhos pela passagem do tempo e pela idade avançada da narradora. A autoetnografia é um dos procedimentos metodológicos que auxiliam a construção dessa pesquisa ao entender a relevância das experiências e percepções pessoais sobre o objeto de estudo.
Palavras-chave: fotografia; álbum de família; autoetnografia; comunicação; memória.
O Terreiro do Pajé Barbosa: memórias político-afetivas do
território Pitaguary
Alex Hermes Assunção (UFRN)
A principal ferramenta mnemotécnica deste trabalho são as memórias do pajé Barbosa: imagens produzidas na Aldeia Monguba da etnia indígena Pitaguary, em Pacatuba-CE, entre os anos de 2013 e 2023. Um acervo significativo que conecta o pesquisador ao território e aos colaboradores da pesquisa, ajudando a compreender processos de autonomia analisados conjuntamente aos saberes tradicionais em seus territórios. Trata-se de um repertório de saberes organizado a partir de cosmologia afro-indígena, que contribuiu para uma reflexão acerca dos métodos de aprendizagem, conhecimento, compartilhamento e colaboração. A retomada destas memórias cotidianas e de eventos foi proposta utilizando ferramentas da antropologia da arte para desmontar um cenário fatídico e reconstruir a vida a partir de uma política das imagens, dos afetos, das artes e dos saberes desses povos tradicionais.
Palavras-chave: memória; aprendizagem; política das imagens; colaboração; etnicidade; corpo; saberes tradicionais.
Curadorias vernaculares no Sertão do Pajeú Pesquisa: Sertão de lembranças. 2021-2024
José Afonso Silva Jr. (UFPE)
A partir da pesquisa de campo desenvolvida no Sertão do Pajeú, Pernambuco, desde 2021, descreve-se a relação de cinco mulheres na guarda, organização e manutenção da lembrança familiar através das fotografias vernaculares, em modo de existência privado e sem predominância de circulação pública. Procura-se identificar em cada uma delas modelos de curadoria da fotografia doméstica, de memória e lembrança. Paralelamente, recupera-se marcos historiográficos da curadoria de maneira a vislumbrar de forma não confrontativa as concepções da curadoria e da fotografia vernacular. Adota-se o marco teórico das fotografias familiares e vernaculares (Batchen) como base para identificar e ampliar o conceito de curadoria das artes visuais para a dimensão vernacular das fotografias. A metodologia adotada é a dedutiva, através de estudos de casos comparativos e historiografia do tema.
Palavras-chave: fotografia vernacular; memória; lembrança; curadoria; Sertão; Pajeú.
Painel 2 – 19h às 21h, ao vivo pelo YouTube
Visualidade imperial e arquivo
Dayse Euzébio (UFPE)
O artigo analisa o papel da fotografia no contexto do imperialismo e colonialismo, a partir da visualidade conferida às pessoas negras e paisagens no Brasil do século XIX. Com o objetivo de analisar como a fotografia foi utilizada para impor um olhar externo e colonizador sobre o país, perpetuando estereótipos e promovendo um imaginário visual de identidade nacional, o texto também examina como as categorias de retrato e paisagem foram moldadas pela ideologia colonial, destacando a relação entre as práticas de nomeação, classificação e estetização Mirzoeff (2016). Ao mesmo tempo, destaca-se a importância de questionar os arquivos e a memória visual colonial, bem como o potencial de deslocar essas imagens através de uma perspectiva crítica, fabulativa e emancipatória.
Palavras-chave: arquivo; fotografia; retrato; paisagem; raça.
O roubo do roubo: Apropriação e montagem como revide histórico na obra de Denilson Baniwa
Rochele Zandavalli (UFRGS)
A série Ficções coloniais, de Denilson Baniwa, vista em relação à produção contemporânea em seu viés alegórico. Apropriação, montagem, e outros movimentos das imagens como força contradiscursiva, contrarretratos de si e da história. Procedimentos estratégicos que revidam aos discursos coloniais tencionando regimes de visibilidade, recriação de narrativas através da desconstrução e reconfiguração de imagens.
Palavras-chave: apropriação; montagem; contradiscurso; ficção; História.
(Foto) Escrevivências, famílias negras e traumas coloniais: notas sobre Pontes sobre o Abismo (2017) de Aline Motta e Travessia (2019) de Safira Moreira
Marina Feldhues (UFPE)
Neste texto, abordo o encontro que tive com duas obras artísticas: Pontes sobre o Abismo (2017) de Aline Motta e Travessia (2019) de Safira Moreira. Proponho lê-las como (foto)escrevivências. Isto é, como obras que criam outras relações éticopolíticas entre memórias individuais e familiares negras e memórias coletivas da sociedade brasileira utilizando, entre outras linguagens, a fotografia. Procuro, então, apresentar o movimento duplo realizado nas obras de expor violências traumáticas que se atualizam desde a colonização, focando na (im)possibilidade de famílias negras e, ao mesmo tempo, operar, simbolicamente, uma cura para tais traumas.
Palavras-chave: (foto)escrevivência; famílias negras; trauma colonial.
As imagens vitais da floresta: Uma análise do fotofilme Povo da lua, povo do sangue
Lwidge de Oliveira e Maria Beatriz Colucci (UFSE)
Este artigo visa refletir sobre a configuração de obras que transitam entre a fotografia e o cinema, comumente chamadas de fotofilmes, destacando a organização, as implicações e os efeitos propostos por este tipo de produção. O estudo parte da dissertação de Érico Elias Fotofilmes: da Fotografia ao Cinema (2009), e de teóricos da fotografia e do cinema como Barthes e Deleuze para analisar o filme Povo da Lua, Povo do Sangue (1985) de Marcello G. Tassara, feito a partir do extenso trabalho de registro fotográfico da cultura Yanomami por Claudia Andujar. A análise fílmica, inspirada pela abordagem analítica de Wilson Gomes (2004), também considerou estudos de Félix Guatari (1999), Bruce Albert e Davi Kopenawa (2015, 2023), Hanna Limulja (2022), dentre outros.
Palavras-chave: Cinema; Fotografia; fotofilme; cultura uanomami; Marcello G. Tassara.
Uma centelha que não se apaga nunca: Fotografia e memória nos arquivos de Helena Antipoff
Pedro Rena (UFMG)
Neste ensaio buscamos observar como a retomada de arquivos de outrora (fotografia e textos de e sobre Helena Antipoff) podem iluminar o nosso tempo presente, restituindo no agora um projeto pedagógico revolucionário, baseado na emancipação social e na subjetivação política dos alunos e professoras da Fazenda do Rosário. A nossa leitura comparatista entre texto e imagem propõe uma interrogação do arquivo o fazendo falar anos depois do momento de sua tomada. Para tal, refletiremos como as imagens fotográficas e os textos de Drummond são materiais artísticos que produzem uma visibilidade e uma legibilidade histórica para esse acontecimento singular na história da educação no Brasil. A sabedoria de Helena Antipoff, constituída no início do século XX na Europa (ao lado de Henri Bergson), depois na Rússia, após a Revolução de 1917, era transmitida em uma cidadezinha qualquer no interior do Brasil, quando recebeu um convite para fazer um curso de formação de professores ao longo de 2 anos, em 1929, onde acabou ficando até o final da sua vida, em 1974. A sua experiência com aqueles alunos brasileiros era marcada pela contingência social e histórica, como se o saber anteriormente constituído precisasse se transformar para se adaptar àquela paisagem. Ao longo de 30 anos (entre 1940 e 1970), as professoras se revezavam para escrever as experiências pedagógicas de cada dia, criando, assim, inscrições textuais que preservaram a memória cultural daquela época.
Palavras-chave: Helena Antipoff.; arquivo; Fotografia; diário.
