Pequeno 2026 começa com oficinas e o Espaço da Pesquisa

Solarigrafia de Mariane Rotter, participante do Espaço da Pesquisa

A 11ª edição do Pequeno Encontro da Fotografia começa nesta quarta-feira (22/4) e, logo pela manhã, o Coletivo Ciano, Cidade (PE) ministra a primeira aula da Oficina de Fotografia Experimental para estudantes da Escola de Referência em Ensino Médio Professor Ernesto Silva. Durante a tarde, também no auditório do Núcleo de Gestão do Porto Digital (no Cais do Apolo, 222, Bairro do Recife), tem início a oficina Colagem e a fabulação de si, com Marina Feldhues (PE).

As oficinas são a única atividade da programação em que é necessário se inscrever para participar (as vagas já estão preenchidas) e neste primeiro dia de evento o público já pode assistir aos painéis do Espaço da Pesquisa. Em duas transmissões ao vivo pelo canal  do Pequeno Encontro da Fotografia no YouTube, pesquisadores vão apresentar os trabalhos que foram selecionados pela professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Sergipe (UFS) Greice Schneider, curadora convidada desta edição. Os textos já estão publicados no site do festival.

Toda a programação tem entrada gratuita e o festival conta com recursos do Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura).

14 h às 17 h – Painel 1
| Apresentação ao vivo pelo YouTube e textos publicados no site do festival (link no título dos trabalhos)

Resumo: A possibilidade de olhar o mundo e registrá-lo fotograficamente transmite as emoções das experiências vividas e permite compartilhar reflexões das suas próprias memórias. Pelos fotolivros Não Reagente, de Priscilla Buhr (2024), e Para poder te olhar, de Yêda Bezerra de Mello (2015), temos as experiências de olhares do nascimento e do luto. Assim, este trabalho busca refletir como uma mãe relata sobre sua gravidez, parto e cuidado com o filho e também como uma filha se coloca diante da perda da mãe através de fotografias. Com as ideias de olhar de Achutti (1995), fotografia e tempo de Sontag (2004), memória de Didi-Huberman (2012) e Barros (2017) e direito a olhar de Mirzoeff (2016) foi desenvolvida a pesquisa documental. Constatamos que ao observar os registros documentais e arquivos familiares foi possível olhar o outro, a si e buscar olhares pelas experiências apresentadas nos fotolivros.

Palavras-chave: Fotografia. Fotolivros. Memória. Priscilla Buhr. Yêda Bezerra de Mello.

Resumo: Esta pesquisa defende as representações do corpo masculino nu produzidas por artistas mulheres, articulando os estudos das masculinidades às críticas feministas da cultura visual. Argumenta-se que tais imagens não operam como mera inversão especular da lógica fálica, mas instauram novas possibilidades iconográficas. Partindo do embate entre perspectivas materialistas e pós-estruturalistas, analisa-se como a História da Arte, a Fotografia e o Cinema consolidaram regimes de visibilidade que naturalizaram a virilidade masculina. A pesquisa propõe uma inversão da mirada patriarcal ao examinar práticas artísticas que erotizam o corpo masculino sob o ponto de vista do desejo feminino. Discute-se, ainda, a dialética do heterofeminismo e as contradições entre desejo e dominação masculina. Sustenta-se que a vulnerabilidade masculina pode funcionar como brecha crítica no interior do sistema patriarcal. Por fim, defende-se que a ampliação das representações feministas do nu masculino contribui para a construção de novos regimes identitários e para a desestabilização das hierarquias visuais sedimentadas na cultura ocidental.

Palavras-chave: Masculinidades. Olhar feminino. Desejo. Visualidade. 

Resumo: Este ensaio explora conceitos como “câmera-corpo” e “cine-transe” como foi suscitado por Jean Rouch no trabalho com as imagens em movimento no qual o pesquisador antropólogo se engaja produzindo imagens de rituais. Aproxima-se das teorias sobre as “técnicas do corpo” em rituais afro-brasileiros, aprofundando a análise da iniciação e da materialidade do sagrado e dos arquivos de imagem/memória, foco do ensaio. Inspirando-se em autores como Marcel Mauss, Tim Ingold, Souty (2011), Rabelo (2011) e Barros & Teixeira (2004), o estudo argumenta que a atenção às técnicas corporais e ao conceito de “correspondência” de Ingold, juntamente com a compreensão do corpo como locus de experiência e conhecimento, pode aprimorar a etnografia com câmera. Apesar do enorme escopo de fenômenos que estão relacionados ao transe nos mais diversos rituais nas religiões afro brasileiras, me detenho sobre uma experiência de pesquisa a qual tenho me dedicado de forma engajada com a câmera na captura de imagens nos terreiros do Pajé Barbosa Pitaguary, no Ceará. As experiências aqui relatadas junto às reflexões teóricas provém deste campo de observação participativa e engajada.

 Palavras-chave: Memória. Arquivos. Transe. Ritual.

Resumo: O projeto Através da Imagem: A fotografia como arte contemporânea, vinculado ao Núcleo de Fotografia da Uergs, promove ações voltadas à ampliação do repertório prático em processos fotográficos históricos e contemporâneos. Suas atividades incentivam a produção de imagens de forma horizontal, fortalecendo trocas entre comunidades interessadas em fotografia artesanal e artística. Entre as principais ações, destacam-se as oficinas mensais de pinhole realizadas pelo LABi em parceria com a Casa de Cultura Mario Quintana, além de atividades especiais para o Pinhole Day 2025, com construção de câmeras caseiras e produção de imagens. A técnica também foi levada à Escola Municipal de Ensino Fundamental Morro da Cruz, a convite do FestFoto Descentralizado, ampliando o acesso ao conhecimento fotográfico nas periferias. Durante a Semana Acadêmica das Artes da Uergs, foi ofertada oficina de cianotipia, abordando fundamentos químicos e possibilidades pedagógicas, seguida de encontro com a artista visual Ana Sabiá, que apresentou o projeto Madonnas e Fridas: arte e maternidade como agenciamentos políticos. O núcleo participa de eventos acadêmicos da região sul, como o SEURS e o SIEPEX, priorizando o diálogo entre pesquisa, ensino e extensão. Também mantém forte presença virtual por meio dos “Encontros com a Fotografia”, redes sociais e site oficial atualizado. Entre outras participações relevantes, estão o Seminário Processos Fotográficos Históricos: Arte e Educação, promovido pelo Instituto Moreira Salles/RJ, e a exposição Breves (E)n(co)ntro(s) e Algumas Derrubadas, do Grupo de Pesquisa Audiovisual Sem Destino da UFRGS. O ciclo de atividades se completou com a exposição Solarigrafia na Casa de Cultura Mario Quintana, reunindo investigações sobre luz, tempo e paisagem. De modo geral, as ações desenvolvidas mantêm a fotografia ativa dentro e fora da universidade, articulando formação, criação artística e diálogo com a comunidade.

Palavras-chave: Fotografia. Oficinas. Extensão universitária.

19 h às 21 h – Painel 2
| Apresentação ao vivo pelo YouTube e textos publicados no site do festival (link no título dos trabalhos)

Resumo: O texto analisa a convergência entre a fotografia e a arte têxtil na produção contemporânea latino-americana, com foco central na obra da artista peruana Ana Teresa Barboza. Sob a perspectiva de uma fotografia experimental e expandida, argumenta-se que essa hibridização desafia as hierarquias da história da arte ocidental, que marginalizou o têxtil como prática menor ou puramente artesanal, e rompe com o modelo hegemônico do dispositivo da fotografia, ancorado em uma visão paisagística perspectivada e racionalista, herdado do Renascimento. Através da análise da série Detrás del Téxtil, demonstramos como a integração de bordados, fios naturais e fotografias de paisagens andinas materializa um giro epistemológico que recusa a proposição de um registro visual neutro e passivo, para se tornar um gesto estético-político que reapresenta ideias como sujeito e natureza, bem como as relações entre imagem e mundo.

Palavras-chave: Fotografia Experimental. Arte Têxtil. Arte latino-americana. Ana Teresa Barboza. Decolonialidade. 

Resumo: O artigo analisa fotografias produzidas pela Fundação Rockefeller durante campanhas sanitárias no Brasil (1930-1940), com foco nas imagens dos “sangrados”. A pesquisa, de base qualitativa e documental, identifica nelas não apenas registros técnicos, mas cenas de interpelação que revelam agência, astúcia e auto-elaboração dos fotografados. A metodologia combina história social, análise visual e referenciais teóricos de Judith Butler, Saidiya Hartman, Tina Campt e Jacques Rancière. A discussão mostra como as imagens, embora inscritas em uma lógica biopolítica, evidenciam processos de resistência e gestos que escapam ao estrito controle sanitário. Os resultados apontam que essas fotografias instauram cenas de aparência, habilitando outras leituras sobre a relação entre poder, corpo e visualidade. Conclui-se que, mesmo sob coerção, emergem subjetividades que deslocam a função exemplificadora do arquivo e abrem-se brechas para fabulações e outras histórias das epidemias.

Palavras-chave: Fotografia. Arquivos. Biopolítica. Fabulação crítica.

Resumo: O artigo apresenta uma reflexão sobre o processo de construção e edição do fotolivro Nos silêncios do passado presente resistem os gritos desaparecidos, que aborda a questão dos desaparecidos políticos da ditadura civil-militar no Brasil (1964-1985) publicado no final do ano de 2024.

Palavras-chave: Fotolivro. Ditadura. Desaparecidos Políticos.

Resumo: Discuto a relação entre fotografia e paisagem no contexto das transformações do semiárido nordestino provocadas pelo avanço das tecnologias de energia “limpa” e pela lógica do Capitaloceno. Apresento o método ASAC (Assunto, Situação, Ajuste e Clique) para refletir o ato fotográfico como escolha técnica, ética e estética, pois a paisagem é entendida como um espaço de acúmulo de memória, identidade e disputa simbólica; e também afetada por políticas de desenvolvimento que alteram os modos de habitar. Apoiado em Benjamin, Ingold, Didi-Huberman, Milton Santos e Ecléa Bosi, propomos que fotografar o Sertão é interpretá-lo e ressignificá-lo. A lente, nesse contexto, ultrapassa o patamar de instrumento técnico e torna-se extensão do olhar no território. Ao fim, propõe uma ética no ato de fotografar que conecte a relação da paisagem com as valências de memória, cultura e pertencimento locais.

Palavras-chave: Sertão. Paisagem. Território. Povos nativos. Fotografia documental.

Greice Schneider

Curadoria

Greice Schneider é professora Associada do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Coordenadora e professora permanente do Programa de Pós Graduação em Comunicação (PPGCOM/UFS). Líder do Grupo de Pesquisa LAVINT – Laboratório de Análise de Visualidades, Narrativas e Tecnologias (UFS) desde 2016. Co-coordenadora da Rede Grafo – Rede Integrada de Pesquisa sobre Teorias e Análise da Fotografia (RedeGrafo). Concluiu Pós-Doutorado em História da Arte pela Université du Quèbec à Montréal (UQAM, Canadá), onde integrou o grupo de pesquisa FIGURA – Centre de recherche sur le texte e l’imaginaire. Doutora na Faculty of Arts pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven, Bélgica), com bolsa Capes de Doutorado Pleno no Exterior. Mestre em Comunicação e Cultura Contemporânea pela Universidade Federal da Bahia (Poscom/UFBA). Desenvolve pesquisa na área de Comunicação e conduz projetos sobre cultura visual e estudos da narrativa. Teve projeto aprovado pelo Edital Universal 2013-2016, intitulado Narrativa visual no fotojornalismo contemporâneo. Foi chefe de Departamento de Comunicação (2015), coordenadora do Curso de Jornalismo (2014-2015) e vice-coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (2017-2018), atualmente é coordenadora do Programa no biênio 2025-2026. Atuou como parecerista de projetos, livros e periódicos, membro de comitê científico e organizadora de eventos internacionais.