Público escolhe vencedores da Ciranda Fotográfica e mais

A agenda do Pequeno Encontro da Fotografia está cheia de atividades na sexta-feira (24/4). Pela manhã, haverá uma roda de conversa com a artista, professora e pesquisadora Marina Feldhues sobre o fotolivro Viagem ao Brasil (1865-1866): a desordem da carne. O público também poderá conhecer as obras apresentadas na primeira sessão da Ciranda Fotográfica, que terá uma segunda edição à tarde, junto com a sessão das Projeções. Isso tudo ocorre no auditório que fica no 8º andar do Núcleo de Gestão do Porto Digital (no Cais do Apolo, 222, Bairro do Recife).

Além conhecer os trabalhos selecionados para a Ciranda Fotográfica enquanto eles são apresentados pelos seus próprios criadores, as pessoas podem votar no seu favorito. Os autores das obras mais votadas (da manhã e da tarde) receberão como prêmio cinco impressões fine art 30 x 45 cm feitas pelo ADI – Atelier de Impressão, que é um dos apoiadores do festival junto com o Porto Digital e o Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães (Mamam). Lembramos que toda a programação tem entrada gratuita e que o evento conta com recursos do Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura).

À noite, haverá uma van disponível para transporte (ida/volta) do púbico do Pequeno Encontro da Fotografia para o evento Solos Foto ARTE.PE / SR, realizado no Shopping Recife. Isso porque um dos curadores do nosso festival, Mateus Sá, será o mediador da mesa Publicações Independentes Pernambucanas. A conversa com Priscila Buhr, José Afonso Jr, Clara Simas e Mergulha e Voa começará às 18h30.

Sexta-feira (24/4)

8h30 – Ciranda Fotográfica e roda de conversa com Marina Feldhues (PE)
| Porto Digital – auditório do Núcleo de Gestão, no Cais do Apolo, 222, 8º andar, Bairro do Recife

  • Vestígios – Ale Ruaro (São Paulo – SP)

É a condensação de mais de vinte anos de investigação sobre linguagem, identidade e liberdade. O livro reúne imagens produzidas entre 2009 e 2025 e assume a fotografia como território expandido, um campo onde a representação deixa de ser registro para tornar-se fricção, ruído e construção poética.

As imagens, densas e por vezes indefinidas, atravessam retratos, street photography e séries autorais, compondo uma paisagem quase ficcional. Não há linearidade confortável: há tensão, matéria, sombra, desejo e dúvida.

Em Vestígios, a fotografia não confirma o mundo, ela o desarticula. Desfoques, texturas e rupturas formais revelam um autor que conhece a tradição para poder tensioná-la. O livro nasce como um gesto de coragem: o primeiro realizado sem a intenção de agradar, mas de afirmar uma identidade visual própria.

Editado e desenhado por Alyssa Ohno, o projeto constrói uma narrativa visual coesa e sensorial, onde design e imagem são indissociáveis. Mais do que um fotolivro, Vestígios é um posicionamento: criar é destruir o estabelecido para abrir espaço ao que ainda não tem nome.

  • História a contrapelo – Cris Miranda (Rio de Janeiro – RJ)

A série é o resultado de uma imersão em diferentes processos fotográficos do século XIX, denominados “artesanais” – cianotipia, papel salgado, marrom van Dyke, goma bicromatada e alguns de seus cruzamentos – a partir de colagens digitais que enunciam a ausência e a presença do manto tupinambá na história do país. Com base em imagens da Baía de Guanabara, na quase totalidade produzidas pelo principal fotógrafo brasileiro do século XIX, Marc Ferrez (1843-1923), na silhueta obtida a partir da performance da artista Glicéria Tupinambá e em elementos pertencentes à fauna e flora originais da Baía de Guanabara como o pássaro Guará, as baleias e as árvores de pau brasil, a série procura dar visibilidade ao apagamento de uma história que precisa ser, cada vez mais, retomada, contada, recontada, conhecida e explicada. Interpela e reativa o passado potencializando a história.

  • Jornada Del Muerto – Márcia Charnizon (MG)

Reflete sobre a necessidade de mudanças subjetivas diante das urgências do mundo ao adotar a perspectiva das plantas. O trabalho foi desenvolvido no White Sands National Park, no Novo México, local da explosão atômica de 1945, em uma região que abriga a maior área de testes e lançamentos de mísseis dos Estados Unidos, historicamente marcada também pela atividade minerária.

Esse território, atravessado por sua complexidade e por desafios históricos, torna-se pano de fundo para retratos de plantas nativas, como a Yucca elata e a Sporobolus airoides — espécies que sobrevivem em condições hostis e desafiam, com sua delicadeza aparente, a lógica da destruição do território. A partir do encontro com essas plantas, o trabalho aproxima-se da ideia de leveza formulada por Italo Calvino, não como negação do peso, mas como um deslocamento do olhar a partir da experiência do próprio peso.

Por meio das plantas, Márcia transforma a adversidade em uma reflexão crítica sobre renovação e metamorfose, propondo um engajamento profundo com a realidade.

(Jornada del Muerto é o nome dessa região, assim denominada por colonizadores espanhóis no século XVI. Parte de uma antiga rota comercial, o território passou a ser reconhecido como “‘um caminho que não leva a lugar nenhum”, devido às condições da travessia, nas quais poucos sobreviviam).

  • MEMÓRIA S.A. – Marcelo Prais (São Paulo – SP)

Trabalho em fluxo contínuo desde 2023, tem como objetivo principal dialogar e refletir reflexões em torno de relações universais humanas e afetivas, ascendentes, descendentes e presentes de maneira perene e ou permanente na vida de todos nós.

De forma mais ou menos consciente todos somos afetados por vastos campos de acontecimentos com reflexos que ecoam no tempo.

As imagens aqui construídas trazem um recorte para reflexão singular por cada 

indivíduo que passeia por entre elas. Cada um constrói sua própria versão e suas re-versões.

Recortes nas relações humanas e registros de família desde os anos 1920.

  • contrafluxo – Amanda Canhestro (Belo Horizonte – MG)

o câncer fez parte de mim

o contato com a morte,

de algum modo me trouxe à vida

aqui, erro e acerto coexistem

vivo a experiência de poder sentir

sair da apneia

sem sedação

revelar olhos curiamorosos

diante do ordinário, nadar

14 h – Projeções e Ciranda Fotográfica
| Porto Digital – auditório do Núcleo de Gestão, no Cais do Apolo, 222, 8º andar, Bairro do Recife

  • Lavagem de Cabeça – Alex Hermes (Rio de Janeiro – RJ)

O ensaio resulta de 10 anos de imersão etnográfica no território Pitaguary (CE), nos terreiros do Pajé Barbosa. Focado no ritual afro-indígena de fortalecimento mediúnico , explora a “câmera-corpo” como método performático. Rompendo com a representação estática, utiliza técnicas de DSLR, longa exposição noturna e movimento para traduzir a estética do transe e a eficácia do invisível. As imagens operam como “tecnologia do encantamento”, onde o antropólogo se funde ao ritual, gerando visualidades que afirmam a resistência cosmopolítica e a memória da aldeia.

  • Um grande passado pela frente – viviane piccoli (São Paulo – SP)

Projeto em andamento, iniciado em 2025. A série reúne retratos das mulheres que compõem a família de viviane — mãe, irmã, tia, avó, prima e ela mesma. São imagens impressas em técnicas diversas, como cianotipia, van dyke, anthotype ou impressão fotográfica comum, que passam por uma intervenção em bordado.

A ideia do projeto, além de criar belos retratos dessas mulheres que a compõem, é também ligá-las, mesmo que distantes, por linhas de bordado — afinal, viviane é o elo entre todas elas. É uma forma da artista se aproximar delas, ainda que de maneira subjetiva.

  • Hummus – NEGROSOOUSA (Granja – CE) 

A essência humana encontra permissão e condição na expressão, um processo singular que transcende a técnica para modular a percepção e compor o campo imagético. Hummus materializa essa revelação pessoal, utilizando a essência terrestre dos tubérculos para criar uma narrativa visual de humanoides imaginários. Estas figuras são personificações xamânicas, cujo poder vai além do visual, atuando como pontes entre o orgânico e o fantástico em um campo harmônico.

Tal qual monarcas de um reino subterrâneo, os humanoides emanam uma dignidade natural e presença imponente, características que o artista busca transmitir ao observador para fomentar identificação e reflexão sobre a natureza humana e suas potências internas. A obra evoca a força interior através dos elementos da terra, relembrando a conexão íntima com o mundo natural e a potência criativa de observar o ordinário com olhos extraordinários.

O material utilizado destaca a potencialidade transformadora dos itens comuns, elevando-os a uma existência extra. Através desta pesquisa e da experiência proposta, a contemporaneidade se instala, traçando uma geografia próxima entre dois mundos. O ato criativo imprime originalidade, intenção e profundidade, consagrando a versatilidade da natureza e propondo uma relação de respeito e crescimento mútuo entre o humano e a terra.

Hummus é uma ode visual à imaginação e um convite ao reconhecimento de um mundo onde as raízes não apenas sustentam, mas se tornam a vida em sua forma mais expressiva e poderosa. É a raiz de tudo.

  • Repetir o futuro – Cassandra Barteló (Salvador – BA)

Série de 11 imagens produzidas com retratos de mulheres. A partir da concepção de que somos constituídos por pessoas e lugares, a artista mescla fotografias de arquivo de família e imagens de paisagens. As imagens tratam da repetição do futuro, mas não como uma cópia idêntica do passado, e sim um futuro pensado como aquilo que carrega consigo a possibilidade de criação, de transformação. O futuro que traz o novo, aprendendo e sendo construído com o passado e com o presente, o futuro que é erguido a partir de referências e vivências, o futuro que é iniciado muito antes de nós, com as gerações que nos antecedem.

A série Repetir o futuro é produzida com fotografias analógicas em formato 3 x 4, originárias das décadas de 1950, 1960 e 1970, e com registros digitais de paisagens, realizados de 1990 até 2025. As imagens apresentam três gerações da família da artista: retratos dela mesma na infância, suas avós, mãe e madrinha. A obra é composta por 11 fotografias impressas em pigmento mineral sobre canvas, no tamanho 15 cm x 20 cm, cada uma. Produzida em processo artístico desenvolvido no Ativa Atelier Livre, a série integrou a exposição Abusar do arquivo, com curadoria do artista visual Fábio Gatti, realizada no Goethe Institut, em Salvador (BA), de 3 de dezembro de 2025 a 6 de março de 2026. O vídeo foi editado por Caio Araújo, da Abajur Filmes. 

  • Pemba – Meysa Medeiros (Natal – RN)

As imagens apresentadas integram o still do curta-metragem Pemba, da Trapiá Filmes, com fotografias de Meysa Medeiros, convidada a lançar um olhar mais documental sobre o projeto, ampliando sua dimensão poética.

Dirigido e roteirizado por Lourival Andrade, o filme constrói uma narrativa sensível sobre identidade e ancestralidade, atravessando a negritude, as memórias do sertão e as conexões com as religiões afro-brasileiras.

O protagonista é Jadson Barbosa, de 10 anos, que interpreta a infância do artista visual André Vicente. Com presença delicada e expressiva, Jadson conduz a narrativa a partir do olhar da criança, traduzindo em gestos e silêncios as descobertas, afetos e experiências que marcaram a formação do artista. 

  • Purificando – Paula Giordano (Belém – PA)

O corpo se entrega ao fogo como quem retorna a um antigo altar. As chamas são guias, elas convocam medos enterrados, iluminam zonas secretas da mente e convidam à travessia. O ritual acontece entre dor e revelação, entre o que arde e o que deseja se libertar. É como se cada centelha abrisse um caminho interno, transformando o corpo em passagem, e não em finitude. Nesse território simbólico, a labareda fala uma língua ancestral: queimar para iluminar, arder para recomeçar.

Se em Asfixia Paula questiona de onde viriam os medos, aqui, ela os depura.

Este fotofilme participou do 39º Salão Arte Pará (2021), “Uma história da videoarte na Amazônia“, ocorrido de forma híbrida, com mostra virtual de 62 vídeos de artistas convidados e curadoria de Paulo Herkenhoff.

  • Santo, na trilha das comitivas – Karina Martins (Belém – PA)

Projeto de longa duração em que Karina acompanha e fotografa as comitivas de esmolação de São Benedito em suas peregrinações durante o ano. Após a Páscoa, as três comitivas de esmolação saem da igreja secular de São Benedito em Bragança em visita a casas de moradores pelas zonas rurais, praieiras e campos alagados do município de Bragança, no Pará, visitam também cidades vizinhas a Bragança, chegando até o Maranhão. Essas comitivas buscam levar a presença do santo Preto, como São Benedito é carinhosamente chamado pela população bragantina, aos lugares mais afastados, e também arrecadar donativos para a grande festa da Marujada de São Benedito, que ocorre no dia 26 de dezembro.

  • Orixás, Mestres e Folhas – Hermes Costa Neto (Recife – PE)

O fotolivro é o resultado de uma pesquisa fotográfica quase integralmente analógica, realizada em negativo colorido e preto e branco, e finalizada em digital. O fotógrafo e documentarista Hermes Costa Neto mergulhou nos terreiros de candomblé de Recife e Olinda, capturando a essência e a beleza dessa rica tradição cultural.

  • Inventário dos lugares impossíveis – Nana Brasil (Salvador – BA)

Em um mundo marcado pela sobrecarga de imagens, emerge a pergunta sobre o que fazer com as fotografias que se acumulam e resistem ao esquecimento. A partir de uma imersão no arquivo pessoal de Nana Brasil, especialmente os arquivos de viagens, nasceu o projeto. A proposta consistiu em transformar esse acervo em novas narrativas visuais, rompendo com as linearidades cronológicas e geográficas que costumam ditar a organização das nossas pastas, HDs e álbuns. Reunidas em grupos polípticos, as fotografias mantêm entre si uma tensão silenciosa, revelando sua incomunicabilidade. A articulação cromática, formal e compositiva suaviza essa ruptura e conduz o olhar a paisagens inexistentes, que se afirmam como artifícios discursivos. Tendo a desconstrução como método, Nana agrupou tempos, espaços e acontecimentos divergentes, criando treze conjuntos imagéticos que funcionam como micro narrativas autônomas. Juntas, essas imagens formam uma constelação de territórios inventados, onde a memória alcança lugares que o corpo jamais percorreu.

  • ainda que desapareça – fabricio victor magno (Caruaru/Recife – PE)

livro-objeto que fala sobre solidão após o falecimento da mãe. é um trabalho que fala sobre como essa solidão se manifesta e também como se elabora. há um grande mistério em torno da solidão, há quem ache bom ou há quem ache ruim. há letras de músicas que falam sobre fugir da solidão ou abraçar a solidão. nesse livro-objeto, fabricio victor tenta elaborar a dele. é um livro-objeto feito que, ao utilizar papel vegetal, carrega a materialidade como uma das características principais do livro.

  • Ulupuwene, A luta das mulheres – Amandine Goisbault (Paudalho – PE)

 O dia a dia da aldeia Ulupuwene, no Alto Xingu, Mato Grosso, é cheio de surpresas. Entre as atividades do cotidiano do povo Waujá estão o cultivo e preparo dos alimentos, a construção e reforma das casas de palha, os banhos e a lavagem de roupas no rio, as rezas, os rituais, o futebol do fim de tarde. Mas em breve será realizada a grande festa tradicional das mulheres, na qual vão se encontrar os Waujá de várias aldeias. Além de cantos e danças, haverá um campeonato de luta entre as representantes das aldeias. Na hora mais quente do dia, as mulheres mais experientes de Ulupuwene, que já foram campeãs, ensinam às mais novas. O treino é de muita força e resistência, mas também é um momento de socialização e diversão entre mulheres e jovens.

  • Raízes Pivotantes – Ana Carvalho (Olinda – PE)

Território afro-indígena situado no alto da Chapada do Araripe, Sertão pernambucano, a Serra dos Paus Dóias abriga conhecimentos ancestrais de cultivo e uso dos matos de cura e alimento, manejado por agricultoras, rezadeiras, benzedeiras mezinheiras e curandeiras – mulheres que têm suas vozes sendo reavivadas e reconhecidas nas suas famílias, comunidade e no seu entorno. Essas mulheres são raízes, sementes, chão, terra, casa e alimento; irradiam uma diversidade de saberes de cura e práticas de cuidado cotidianos, passados de geração em geração para seus filhos, netos e bisnetos, na construção de um território comum de vida e de bem-viver. Aprendem com a Caatinga a resiliência e a resistência. São princípios de vida e transmissão de saberes, mantendo viva a pulsação e a continuidade da vida.

  • Imagem em preto e branco de uma mulher preta de lábios fartos. Ela tem um adorno em sua cabeça, como uma coroa grande de palha, que cobre seus olhos com uma franja de miçangas, e utiliza uma vestimenta feita de conchas e palha. Ela representa Oxum.